Sunday, August 4, 2013

A minha leitura sobre parte do desemprego em Portugal

Samuel F. Martins
2013


Os professores, os enfermeiros e os finalistas de Direito não têm emprego em Portugal. Quando o têm, são mal pagos. De quem é a culpa?

A minha “leitura” deste tópico é certamente limitada pela ignorância de muitos factos e provavelmente todas as minhas observações são óbvias, mas não há dúvida de que a culpa é repartida entre o indivíduo e o(s) Governo(s):

A) Indivíduo
  1. O aluno, quando escolhe o curso, deve ponderar sempre os seus gostos pessoais (com o limitado conhecimento que tem deles) face à expectável procura do mercado na altura da sua graduação. Se a procura é reduzida, então o aluno tem de estar consciente de que talvez só os, digamos, 50 melhores no país terão um emprego interessante e convenientemente remunerado na área.
  2. Num sistema eficiente, os preços (neste caso, os salários) baixam quando a oferta aumenta relativamente à procura. E baixam ainda mais para o trabalhador quando a lei laboral é demasiado restritiva e, para “flexibilizar” as contratações, se passam a utilizar intermediários que absorvem ~50% do salário, como no caso dos enfermeiros. No caso dos professores, o Governo tenta pelo menos contratar os melhores; os melhores identificam-se com avaliações, que nunca vão ser perfeitas (nem no sector privado o são ou serão, mesmo com décadas de experiência); ninguém gosta de ser avaliado e colocado fora da zona de conforto, mas é assim que se evolui!
  3. Nos EUA, por exemplo, o alinhamento oferta / procura (e o incentivo ao estudo!) é “automático”, porque o aluno paga anualmente $20.000-$40.000 de propinas, pelo que o curso é visto como um investimento que tem de ter retorno. Eu acredito que existe um sistema mais equilibrado, sem propinas impeditivas para uma grande parte da população (i.e. sem propinas que reflictam directamente para o aluno o custo real do seu ensino), mas é o Governo que o tem de implementar.

 B) O Governo
  1. O Estado paga anualmente uma média de cerca de 3.500 Euros por aluno do Ensino Superior (há boas discussões sobre o facto deste valor ser inferior ao de um aluno do 2º ciclo do Ensino Básino), mas tem um controlo muito limitado do que o aluno faz com esse “investimento”. Sem dúvida que há espaço para o Governo tomar decisões mais estratégicas com um ajuste dinâmico do limite de estudantes por curso (Numerus Clausus), incluindo o zero com maior frequência. A não ser que já estejamos prontos para entrar na era da educação global...
  2. Em vez de melhorar o sistema “upstream”, os nossos impostos estão a remediar “downstream”, com estágios profissionais, subsídios de desemprego, etc. (desculpem os meus inglesismos, mas outras línguas têm expressões úteis para certas ocasiões).
  3. Finalmente, penso que a sociedade Portuguesa beneficiaria de uma maior promoção do empreendorismo (incluindo o aplauso e encorajamento quando um projecto não é vitorioso) e da flexibilidade na educação (devíamos ter licenciados em Medicina a tirar MBAs para montar empresas de biotecnologia!). Precisamos de empreendedores flexíveis para reconstruir a nossa economia (este é um bom exemplo). É tão fácil falar.

 C) Próximos passos
  1. E como em qualquer boa discussão, quais são os próximos passos? Não sei. Sugestões?
  2. Existem diversos artigos com muitas perspectivas, como este sobre advocacia, ou este e este sobre enfermagem.
  3. Uma coisa é certa, entre actuar sobre o A) ou sobre o B), eu acho que o A) está mais ao alcance de cada um de nós.

4 comments:

  1. Sama! Gostei do teu texto. Vou dar a minha opinião por partes, hoje só sobre o ponto A1...

    Em relação ao a A, acho que é bom que os miúdos se esclareçam da empregabilidade de uma formação. Mas vou confessar que não acho justo pedir aos putos de 18 anos p ter mais visão estratégia que os líderes na administração Edu. Penso que em relação ao racio empregabilidade/vagas a due-diligence pertence ao Secretariado de Estado do Ensino Superior, reitores, vice reitores e respectivos. Desenhar um sistema robusto que proteja os alunos deve pagar 20% dos ordenados destes senhores...Aliás ser Reitor é provavelmente a melhor profissão em Portugal, porque ninguém te detesta como aos políticos, ganhas tão bem ou melhor, e estás no refúgio das muralhas académicas...É um daqueles métodos organizativos que custa a implementar mas é bem fazivel. E a maior dificultade quer me parecer será a complexidade administrativa "desenhada" num textozinho com 105 anos, a velha constituição portuguesa. Depois rescrita por um muito bom menino com nome Salazar em 1933, e depois, ainda n confusão de uma pos revolução em 1976 vivemos moldados por sistemas...O problema em portugal não é o DNA das pessoas, é o manual de instruções. Porque é que vou suar se sei q não me podem despedir? Porque é que eu nao vou roubar se ninguem me vai condenar? Porque é que eu vou ajudar se sempre me deram p baixo...Estas são um bocado as consequencias de ter um manual de instruções desequilibrado, pouco protetor. E nascemos todos dentro dos contornos desse manual, e ele molda-nos. Por isso, eu penso que seria importante no caso das reitorias uma cota mínima de possoas de outro países. A qualidade penso que aumenta. Que soneira. Depois venho ca deixar mais opinioes...Roque

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  2. Obrigado Roque!

    Acho que tens toda a razao em realcar que um aluno com 18 anos nao consegue ter uma boa visao estrategica. Resta-lhe investigar o maximo possivel para se informar pelo menos das coisas mais provaveis / obvias.

    A tua analogia com um "manual de instrucoes" faz muito sentido :) Esse manual muda quando o Tuga emigra, e e' por isso que todos gostam tanto do espirito dedicado e poderoso do nosso povo.

    Venham os proximos comentarios! :)

    Grande abraco,
    Sam

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  3. A e B pontos 1. Realmente o controlo de vagas tem de ser feito a nível governamental consoante os interesses do país. Qualquer area/lobby/ordem beneficiaria fechando a entrada de competição e criando critérios que impeçam estrangeiros de trabalhar em solo nacional. Por outro lado, faculdades/politecnicos/universadades sao pagas à cabeça, é do seu interesse que seja o numero de alunos em vez das vagas o "reagente limitante". Ora, que é dever do governo criar espaço para suprir as necessidades da sociedade é obvio (para nao ser necessario importar medicos da america latina ou europa de leste, benvindos sejam sei os quais teriamos um sistema de saude mais precario), assim como que não é de interesse nacional ter investido em milhares de pessoas que não conseguem aproveitar a sua formação (areas ditas saturadas, como psicologia, sociologia, etc).
    Bem, mas até aqui ja nos sabiamos.
    Sugestão? Que tal um sistema hibrido. O estado define vagas tal e qual como até agora, mas existe um segundo numero de vagas que não sao suportadas (ou pelo menos nao a 100%) pelo estado e sem tecto de propinas.
    Ou seja, incentivam-se o numero de profissionais considerados de importancia estrategica, deixa-se a porta aberta para as pessoas que ao não conseguirem entrar nas vagas possam estudar o que querem desde que estejam dispostos a investir no seu proprio futuro.
    A ser implementado, seria interessante ver em que pontos estabilizariam as propinas (haveria concorrencia baseada nao so na eficiencia dos recursos atribuidos pelo estado,mas tambem uma nova gestao do que cada curso verdadeiramente precisa).

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  4. Obrigado Hugo!

    A tua sugestao de um sistema hibrido e' bastante interessante e melhor do que a solucao alternativa do Estado passar a dar bolsas directamente ao estudante consoante a sua performance academica e deixar de suportar as instituicoes de ensino (que resultaria em propinas 5 a 10x superiores, mas suportadas pelo estado para os alunos dedicados).

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